Artigos

Cinema tenta resistir ao coronavírus

Carros em um cinema drive-in durante a pandemia

Do consumo de conteúdo online às possibilidades (e impossibilidades) de lazer: o coronavírus chegou sacudindo a forma como lidamos com a arte e com o entretenimento. Algumas dessas mudanças devem permanecer mesmo após o fim da pandemia. 

As lives nunca fizeram tanto sucesso, e é possível encontrar conteúdo para todos os gostos: de músicos com seus shows ao vivo da sala de casa a atores dedicados à contação de histórias para crianças. E, mesmo assim, algumas pessoas ainda têm dificuldade de entender a importância de artistas e produtores de conteúdo em meio a uma pandemia.

Quando se trata especificamente do Brasil e do cinema brasileiro, a produção nacional, que já parecia respirar com a ajuda de aparelhos mesmo antes da pandemia, segue na luta por mais fôlego. E não parecem ser poucas as mudanças que o coronavírus deve trazer tanto aos sets das produções quanto às salas de exibição.

Faça o download deste post inserindo seu e-mail abaixo

Não se preocupe, não fazemos spam.
Powered by Rock Convert

Cinema x coronavírus 

As salas de cinema foram um dos primeiros empreendimentos a serem fechados desde o surgimento do coronavírus, por conta da incidência de aglomeração em seu interior. Se a competição com os serviços de streaming já era acirrada, especialmente para os cinemas de rua, a situação ficou ainda mais delicada. 

O Cine Belas Artes, tradicional cinema de São Paulo, por exemplo, precisou recorrer a uma campanha de arrecadação online para manter uma renda mínima capaz de suprir demandas de manutenção como água, luz e folha de pagamento.  

Além disso, uma imagem publicada no Twitter pelo diretor brasileiro Kléber Mendonça Filho, responsável por sucessos como Bacurau, Aquarius e Som ao redor, chamou a atenção para outros possíveis prejuízos decorrentes de salas de cinema fechadas por muito tempo.

Sim, o audiovisual não deixa de ser um negócio, e mesmo as grandes franquias precisam inovar durante a pandemia. Mas será que vale priorizar vendas e negligenciar o relacionamento

Notificada pelo Procon em novembro de 2019 pelo preço exorbitante de um combo temático do Star Wars, o Cinemark voltou a figurar negativamente nos Treding Topics do Twitter ao anunciar a venda de sua pipoca online — algo não tão efetivo na tentativa de reproduzir a experiência em uma sala de cinema em casa. 

Carros para assistir aos filmes 

Se a tentativa é reproduzir a experiência do cinema dentro das limitações impostas pelo coronavírus, o retorno dos cinemas drive-in parece ser a aposta certa. Acredita-se que o modelo tenha surgido no México, ainda que tenha sido oficialmente patenteado por um magnata de Nova Jersey em 1933. O negócio se popularizou nas décadas de 1950 e 1960, especialmente nas cidades do interior dos Estados Unidos. 

Se originalmente o apelo dos drive-ins vinha da possibilidade de levar as crianças para assistir a um filme e fazer isso com conforto e privacidade, dessa vez é a possibilidade de sair de casa em família minimizando as chances de contágio pelo coronavírus que chama a atenção de possíveis adeptos.

Ainda que potencialmente exclua a metade da população brasileira que não possui automóvel, a modalidade parece ser a forma atualmente mais viável de reaquecer o mercado cinematográfico. 

Festivais de cinema drive-in são previstos ao redor do mundo e, no Brasil, a capital paulista já lidera iniciativas nesse sentido. O próprio Governo do Estado comanda o projeto, em uma parceria com o já citado Cine Belas e o Memorial da América Latina, local que recebe até 100 carros por sessão. 

Por ora, os drive-ins têm focado na exibição de clássicos, como Laranja mecânica, A vida é bela e O iluminado, e a programação está prevista para até 27 de julho.

Ao que tudo indica, o cinema não é a única arte que deve apostar nessa modalidade de entretenimento enquanto as aglomerações não forem seguras. Um festival de música drive-in já está programado para acontecer durante três fins de semana de julho na Austrália. 

Mudança no estado da arte 

Como dito, não são só as salas de cinema que passam por transformação devido à pandemia do coronavírus, mas todo o audiovisual. Outra mudança no horizonte é uma possível trégua (e até parceria) do mercado mais tradicional com os serviços de streaming.

Ainda que grandes produções como Viúva negra, Capitã Marvel 2 e Mulan tenham tido suas estreias adiadas, um dos pontos que parece favorecer o lançamento nessas plataformas é a mudança nas regras do Oscar. Pela primeira vez na história, a Academia permitirá a nomeação de obras não exibidas em salas de cinema na edição de 2021.

O filme Ema, do chileno Pablo Larrain, por exemplo, foi lançado exclusivamente na plataforma Mubi, ficando disponível gratuitamente até mesmo para não assinantes por 24 horas no dia 1º de maio. 

No Brasil, o Espaço Itaú de Cinemas organizou um festival online por meio da plataforma Looke, com a pré-estreia de 19 títulos inéditos (e em sua maioria brasileiros), muitos dos quais podem ser vistos gratuitamente até 28 de junho. 

Outra mudança que talvez chegue às salas de cinema é a adaptação dos espaços para garantir uma distância segura entre os expectadores. Um tradicional teatro alemão que deve voltar a funcionar em setembro reduziu a capacidade de sua sala de 700 para 200 lugares. A ideia é que a solução seja temporária, fazendo o que é possível no momento. 

Dando um passo para trás, os sets de filmagem também vão precisar se adaptar para garantir a segurança das equipes, o que pode inclusive atrasar a finalização e o lançamento de inúmeras produções. 

Infelizmente, o acesso à cultura é limitado no Brasil — rendendo, inclusive, tema de redação para o Enem. Sob algumas perspectivas, o “novo normal” não parece tão novo assim — afinal, muitas das alternativas encontradas não são exatamente inovadoras, como a recuperação dos drive-ins.O mercado cinematográfico como um todo (em especial o brasileiro e o independente) luta todos os dias por sua sobrevivência e merece a devida valorização.

Nesse ínterim, as empresas da área precisam entender como trabalhar a confiança dos seus consumidores.

Publicações relacionadas
Artigos

Predizer ou prescrever, eis a questão

Artigos

Por que focar em small data?

Artigos

Como liderar com a ansiedade ao seu lado

Artigos

Compras em lojas físicas: ao vivo, mas sem sair de casa