Opinião

A inteligência em tratar do outro

Cérebro e coração de massinha são conectados por uma linha

Em abril deste ano, eu não estava em um bom estado emocional devido à pandemia. Fazia pouco mais de um mês que a Rock Content havia decidido que, para a segurança de todos os colaboradores, trabalharíamos de casa.

As primeiras semanas de uma migração para home office são sempre as mais complicadas. No entanto, quanto tempo é tempo o suficiente para considerarmos “as primeiras semanas”? Duas? Três? Quando será que passaria o desconforto que eu sentia?

Foi então que no quarto mês do ano li a entrevista That Discomfort You’re Feeling Is Grief, com David Kessler, na Harvard Business Review. O especialista em luto é coautor do livro On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief through the Five Stages of Loss.

Na conversa com a HBR ele fala do sentimento de luto generalizado experienciado pela sociedade mundial por causa de tudo o que o coronavírus nos tira. As palavras de Kessler acenderam em mim a luz do entendimento e já me senti melhor. Ao mesmo tempo, me perguntei como estariam as pessoas que estivessem passando por outros processos de luto.

Hoje, só no Brasil, há mais de 2 milhões de infectados e mais de 80 mil mortos pela covid-19. Convivemos com a doença há tanto tempo que os questionamentos diários — o quão perto o vírus chegou de mim? Será que, ao lavar as mãos, já me livrei de algum coronavírus que estava à espreita? Fui um infectado assintomático? — quase não nos passam mais pela cabeça.

Nessa banalização da tragédia, na invisibilidade que se esconde na rotina, perdemos de vista os sofrimentos individuais dos outros e também os nossos próprios. Para alguns, as estatísticas já ganharam lugar de números frios; mas isso não vai acontecer para quem se despediu de pessoas queridas. Como entender e ajudar quem passa por essa sensibilidade tão dolorosa?

De tão maravilhado com a entrevista na Harvard Business Review, não reparei como ela estava categorizada no site e só depois de revisitar o conteúdo três, quatro vezes, percebi no canto superior esquerdo, acima do título, a escolha do jornalista: Emotional Intelligence.

Já estamos vivendo em um momento em que a inteligência emocional dos líderes é cobrada, tanto pelos liderados quanto pelas empresas em si. O trabalho de um gestor agora também é constituído por essa face e ele precisa agir com essa questão em mente. Isso significa que também é necessário olhar para si mesmo, para então estar em melhores condições de cuidar de quem depende de você.

Apenas trabalhando bem a inteligência emocional é possível entender as nuances que a perda tem às pessoas. Somos plurais, tanto no sentido em que há diversidade em uma mesma equipe, quanto na diversidade de sentimentos que existe em um só ser.

Alguns vão querer conversar, alguns vão preferir espaço; outros, um pouco de cada e outros, ainda, algo totalmente diferente. O luto está na perda da normalidade pré-crise, na falta de conexão física, no tolhimento de liberdades individuais, na falta da presença daqueles que faleceram e ainda se manifesta de outras formas, tão diversas e dolorosas quanto.

Aqui, não há outra saída a não ser realmente se importar com cada um daqueles que você lidera. Nesse processo, é indispensável olhar para um liderado dessa forma, como apenas um.

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